Tenho um amigo aqui de Canela que tem um projeto muito
bacana.
Ele mora em um bairro de classe média baixa da cidade.
Trabalha pra caramba, mas mesmo assim arruma tempo para ajudar outras pessoas.
Eu não tenho a paciência que ele tem, mas decidi colaborar
com o que eu pudesse fazer para ajuda-lo no projeto.
Este projeto é grandioso, como todo projeto que envolve o
bem estar de pessoas e ao mesmo tempo, extremamente simples, como a vida desse
meu amigo.
Certa vez ele vendo a dificuldade do filho dele em conseguir
jogar futebol com os colegas de escola, e que fique claro que o garoto não tem
necessidades especiais, não precisa de ajuda especializada, apenas não é o
melhor garoto no futebol, resolveu montar um time para atender exatamente essas
crianças que são os preteridos.
A coisa começou pequena, mas como existem muito mais
crianças que times de futebol, o projeto foi crescendo, crescendo e alguns anos
depois, confesso que não sei quantos, o projeto tem algo em torno de 160
crianças.
O Gaúcho, como é chamado o projeto, tem times que vão desde
o sub nove até o sub dezessete e todos os sábados eles se encontram em uma
quadra de uma escola pública no bairro em que moram para algumas horas entre
futebol e ensinamentos.
Sem fazer drama de telenovela, o projeto atende na sua
maioria crianças carentes e que estão muito próximas de pontos de venda de
drogas. É pessoal, Canela não é só o paraíso que se vê nos cartões postais,
também temos problemas por aqui.
Esse meu amigo luta, junto com a esposa, com muita
dificuldade para manter o projeto, afinal são mais de 10 times incluindo todas
as categorias e arrumar equipamento para todo mundo não é fácil, e vocês sabem
como são crianças. Elas querem jogar com a camisa do time e não querem saber
aonde aperta o calo.
Eu pouco ajudo nessa história toda, mas tento fazer o melhor
que posso e hoje, fui recompensado com uma emoção daquelas, de deixar os olhos
mareados.
Outro amigo que fiz aqui em Canela e que também trabalha pra
caramba, mas mesmo assim arruma tempo para ajudar os outros, é o cara que
cuida, com carinho dos meus carros. Quem vê pensa que eu tenho um monte. Não é
nada disso, tenho dois carros velhos, um com 15 e outro com 30 anos e os
velhinhos, não aceitam qualquer um então um cara que cuide com carinho deles,
tem uma boa chance de eu tentar me tornar amigo, não por interesse, mas por afinidade.
Entre uma visita e outra à oficina, este cara me contou a
história recente da vida dele com a dependência química.
Pelo que ele me contou do que ele passou, a coisa foi pesada
mesmo, por sorte e um baita apoio da família, hoje ele está recuperado e
transmitindo suas experiências para outras pessoas.
Eu resolvi juntar essas duas experiências.
Conversei com o cara da oficina e perguntei se ele queria
conversar com uma garotada entre nove e quinze anos sobre o que ele havia
passado e ele topou e falei com o cara das crianças sobre a proposta e ele
aceitou e o dia foi hoje.
Por volta de duas da tarde chegamos ao local do treino e
aguardamos até que todos os garotos tivessem se acalmado para começarmos a
conversa.
Eles foram se sentando no meio da quadra, em volta da gente,
foram feitas as apresentações e o cara da oficina começou a falar o que as drogas
haviam feito com ele e principalmente, como ele havia começado nessa vida.
Eu, que estava lá tirando fotos, acabei me sentando junto
com a garotada que prestava atenção na narrativa e fiquei olhando os meninos,
cada vez mais interessados e quietos. Acho que o meu amigo falou por uns
quarenta minutos e naquele tempo não se ouvia nenhum pio.
Fui prestando a atenção no que ele falava e fui imaginando o
que deveria ter sido aquela vida e que coragem a dele de se expor dessa forma,
de peito aberto, sabendo das suas limitações, dos seus erros, do preconceito
que isso implica e mesmo assim dando o recado.
Ele, este meu amigo, ainda não tem trinta anos, mas a
coragem dele é impressionante.
No final da narrativa dele, me senti emocionado e muito
feliz. Feliz por ter ouvido aquilo. Feliz por ter proporcionado que ele
passasse isso adiante. Feliz por ter me sentido útil.
E como um deles diz. Se isso que eu falo servir para mudar o
caminho de duas crianças, já ta valendo a exposição e o esforço.
Claro que não chego nem perto do que fazem esses dois caras,
mas sinto orgulho de poder trata-los como meus amigos.
Parabéns meus Amigos pela iniciativa de mudar o mundo.
Seríamos muito melhores se tivéssemos mais alguns como vocês dois.
Obrigado por mais essa oportunidade e essa experiência.
| Foto de uma parte da turma |



