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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Aprendendo muito com a pesquisa de campo


Vocês leram no meu último texto que uma das coisas que eu estava fazendo era uma pesquisa de campo para a ACIC, Associação Comercial e Industrial de Canela.

Esta pesquisa é para escolher as melhores empresas de Canela em cada um dos setores.

Há uma metodologia na pesquisa, que é divida por setores da cidade.

No primeiro lote me deram 100 entrevistas para fazer distribuídas em seis setores escolhidos aleatoriamente pela coordenação da pesquisa.

Agora no segundo lote, são mais 70 entrevistas nas mesmas condições.

Bom o que eu quero dizer é que estou conhecendo Canela como conheço poucas cidades. Estou conversando com os mais variados tipos de pessoas, sendo cheirados pelas mais diversas raças de cachorros e andando em média, cinco quilômetros por dia.

Está maratona toda começa a produzir algumas situações interessantes que tentarei descrever.

A primeira coisa é escolher a casa para a entrevista.

Como eu tenho começado sempre por volta de 9h30 da manhã, as casas ainda estão fechadas e em dias nublados então, quase ninguém põe a cara pra fora, quem dirá abrir a casa. Ai então eu uso as ferramentas que desenvolvi:

Calma pessoal ,não é o que estão pensando. Não, não é pé de cabra e nem uma arma, são ferramentas de observação.

Se a janela está aberta é fácil, mas se a janela está fechada, partimos para os itens.

1) Se tiver luz acesa, há grande possibilidade.

2) Se perceber alguma música ou conversa, certamente tem gente. É aqui em Canela, as ruas nos bairros são tão tranquilas que você consegue perceber se há barulho dentro da casa.

3) Se tiver um carro parado na porta, não dentro do pátio, há grande possibilidade de ter alguém na casa.

4) Se a chaminé do fogão está soltando fumaça, certamente tem alguém na casa, ou é melhor ligar para os bombeiros.

E com essas ferramentas de observação eu vou facilitando a minha vida no campo.

Ai entra a questão de como entrar em contato.

Aqui em Canela, na maioria das casas que eu visitei a campainha fica colada à porta, então você precisa entrar na casa da pessoa, tocar a campainha e voltar para ao portão.

Esse procedimento parece fácil, infantil até. E seria, se não fosse o detalhe de que na maioria dessas mesmas casas há um cachorro que te olha estranho e normalmente ele fica entre o portão e campainha.

Ai quando a  campainha fica no muro da frente, longe do cachorro, na maioria das vezes ela não funciona.

O jeito é apelar para o velho e bom  bater palmas e torcer para que uma vitima apareça,  sim porque a pesquisa faz do entrevistado uma vitima.

São mais de 90 perguntas e todas de lembrança de marca, nos mais diversos segmentos de comércio e serviços da cidade, mas pesquisa é pesquisa e eu sempre as levei muito a sério e não seria agora que eu iria começar a detona-la, então vamos à apresentação.

Com um sorriso no olhar, e o crachá no peito eu armo o meu discurso.

"Bom dia. Eu sou da ACIC e estamos fazendo uma pesquisa para eleger as melhores empresas de Canela de 2013.

É o prêmio Mérito ACIC. O (a) Senhor (a) poderia nos ajudar, respondendo um questionário comigo?

Não leva mais que dez minutos. (primeiro truque, lembram, são 90 questões)

É uma pesquisa de lembrança de marca.

Eu falarei alguns segmentos e a senhora responderá o nome da empresa que lhe vier à cabeça.

Caso não se lembre de nenhuma, apenas diga que não lembra e seguiremos em frente, sem preocupação.

Podemos começar?"

Depois do questionário, das 90 perguntas, quando as pessoas começam a ficar impacientes e a me olharem atravessado, eu ainda peço mais dois favores:

Confirmar o nome e endereço, traçar um rápido perfil do entrevistado e pedir que ele escreva o seu nome na pesquisa para valida-la.

É minha gente, é fácil a vida de pesquisador.

Agora que vocês entraram no clima de rua comigo, ficará melhor entender as situações que vou relatar.


VIRANDO NETO.

Entrevistei uma senhorinha, muito gentil que me convidou para entrar e sentar na varanda.

Comecei perguntado sobre os segmentos e ela ia respondendo tranquilamente. Tinha um bom conhecimento da cidade, principalmente das pessoas. Ela não lembrava direito do nome das lojas, mas conhecia praticamente todos os donos (isso é bem comum por aqui, coisa de cidade pequena).

Lá pelas tantas ela me olhou e falou. “Nossa como o senhor parece meu neto que não vejo há muito tempo” e pegou na minha mão.

Os olhos dela estavam cheios de lágrimas e ai pronto, lá se foi a pesquisa.

Parei peguei na mão dela e começamos a conversar e ela me contando da última vez que havia encontrado com o neto e eu perguntei por que fazia tempo que ela não o via e a resposta foi, porque ele havia morrido num acidente.

Caramba o que fazer diante daquilo, melhor mudar de assunto.

Olhei em volta vi a foto de um jovem na parede e perguntei se era ele, ao que ela respondeu com a cabeça que sim. Olhei mais atentamente e a nossa única semelhança era a barba, mais nada, mas eu já a estava chamando de “vó” e com isso ela foi relaxando e voltou a sorrir.

Ai, vó pra lá, vó pra cá, uma história daqui, outra dali e consegui terminar a entrevista quase uma hora depois de ter entrado na casa daquela senhora.

Sai de lá com uma sensação boa. A de que mais do que pesquisa, havia feito uma senhora feliz, por ter trazido boas lembranças a ela.

Isso me lembrou das épocas em que eu bancava o Papai Noel na empresa e ia visitar os orfanatos.

Sempre havia uma situação indigesta que precisava de uma resposta ou uma saída mais amena.



QUASE ME PERDENDO

Essa aqui também foi bem legal.

Eu bati numa casa e quem abriu a porta?

Uma garota, daquelas que são difíceis não se reparar.

Ela vestia uma roupa muito menor do que o seu manequim que não mostrava nada, mas insinuava tudo e assim veio me atender.

“Bueno” como se diz por aqui. Era hora de centrar na pesquisa, mas não seria uma coisa muito fácil não, porque ela era realmente muito bonita. Alta, morena de olhos azuis.... Calma mano, volta pra pesquisa.

Ela me convidou para entrar e eu fui até a varanda, porque era um daqueles dias de sol forte, mas eu sabia que estava arriscando.

Ela perguntou se eu não preferiria fazer o questionário dentro da casa, que estava mais fresco.

Cara! Que desespero.

Por sorte meu anjo da guarda bom estava ali de plantão e me ajudou na resposta me fazendo dizer que a ACIC não permitia que nós entrássemos nas residências.

Digo isso porque sei que quem pilotou essa foi meu ajno da guarda. Se eu entro ali, não sei o que seria de mim e ai:

Adeus pesquisa, adeus casamento, adeus tudo.

Ficamos na varanda. Eu sentando num banco e ela numa cadeira com as pernas cruzadas, sorridente e insinuante. Ela sabia o que estava fazendo e eu sabia que ela sabia que eu sabia que ela sabia o que estava fazendo.

Quando eu já havia recorrido a quase tudo para me abster daquela visão e me concentrar na entrevista, eis que o "tinhoso" apronta de novo. Sem mais nem menos, a porta da sala se abre e de dentro sai outra garota nos mesmo moldes com uma bandeja com água para nós. Me oferece um copo e depois de colocar a bandeja na mesa, passa por traz de mim, numa distância que dava para sentir o perfume de banho recém-tomado e vai se se sentar ao lado da que eu estava entrevistando. Sempre sorridentes e insinuantes. Elas estavam de sacanagem comigo.

Não foi fácil. Eu não lembro quanto tempo levou aquela entrevista, mas assim que terminei, tratei de levantar e me mandar.

Eu não sabia quanto mais eu conseguiria aguentar. Eu só lembrada do "adeus casamento e adeus tudo".

Quando entrei no carro,e lembrei-me do que acabara de acontecer, comecei a rir sozinho.

No fundo foi divertido.

Fazia tempo que eu não levava uma cantada sem ser da minha mulher.

Fez bem pro meu ego e descobri que o coração ainda está em ordem e o medo também.



FAMÍLIA FELIZ.

Nessas pesquisas, eu visitei alguns lugares da periferia da cidade e numa dessas casas eu encontrei uma família que me fez repensar a vida.

Era uma casa muito simples, mas simples mesmo, quase beirando ao nada. Da rua dava pra ver que era apenas um cômodo que abrigava a todos e como era um domingo, estavam todos em casa, o pai, a mãe e as duas filhas.

A família era linda. Tanto os pais como as filhas eram figuras daquelas que poderiam sair em qualquer capa de revista, mas o que mais me impressionou foi a alegria em que eles viviam.

Receberam-me com alegria. Eu ia fazendo as perguntas e eles respondendo sempre com um sorriso no rosto, brincando entre eles e na hora de montar o perfil percebi que a simplicidade deles não era só de uma possível falta de sorte, mas sim de falta de oportunidade, porque o pai pediu à filha mais velha que escrevesse o nome dele na folha.

Aquela situação me fez refletir sobre o que é mesmo necessário para sermos felizes e que a verdadeira felicidade não está nas coisas e nem fora, está dentro da gente, num carinho, num sorriso, numa delicadeza.

Estou aprendendo muito com esse trabalho. A cada entrevista, a cada conversa, percebo o quão pequeno eu sou e quanto ainda tenho que aprender sobre a cidade e suas pessoas.

Ainda tenho mais quatro setores para fazer, vamos ver o que vou aprender nesses.

Obrigado e quem sabe a gente nãos e vê pelas ruas de Canela. Pelo menos até o final do mês eu estou por ai, senão a coordenadora me mata.

5 comentários:

  1. Delicia de texto, adorei!
    Esse é o Grande Caius, sempre aproveitando as oportunidades para crescer e nos levar junto. Obrigada.
    bjs

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  2. Muito gostoso entrar contigo no seu dia a dia...Obrigada maninho pela viagem instantânea, beijão saudades

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  3. Caius!
    De uma coisa, tenha certeza, depois dessas experiências em relações humanas, nascerá um novo Caius! Precisamos sempre olhar, e ver, o que depois das nossas viseiras mentais, se esconde... Você está descobrindo e generosamente partilhando conosco! Cheguei ao seu blog por uma grande amiga-filha... a Glória! Um belo convite! Até mais!
    Abraço,
    Célia.
    http://celiarangel.blogspot. com

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