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quinta-feira, 7 de março de 2013

A vida de aposentado e o divórcio


Não sei se há algum dado estatístico sobre o tema, mas uma coisa é certa. Eu duvido que haja algum casal que quando se aposenta fica só de boa na lagoa.

A vida aqui está divertida ainda, mas com muito mais emoção do que o previsto.

Aposentar-se é uma coisa boa. A gente, mesmo que recebendo pouco sabe que nunca mais vai ficar preocupado com as contas de luz, água e supermercado. Falo isso porque a minha aposentadoria cobre somente estes três itens, mas essa não é a questão básica.

Está fazendo quase um ano que me aposentei e que “se me saíram” do emprego e nesse tempo tentei fazer algumas coisas, nem todas deram certo, mas a coisa que eu mais fiz foi ficar em casa perto da Dorinha.

Mudamos-nos para Canela, uma cidade em que queremos terminar nossas vidas e claro, ainda estamos nos adaptando à cidade.

Algumas coisas já estão indo bem, algumas outras precisam de uns ajustes e outras bem essas outras precisamos parar e começarmos de novo.

Relaxem que estamos bem e felizes.

Este texto é com o intuito de informar aos que estão para se aposentar para que se preparem porque se acham que a vida vai ser mansa, vão descobrir que eram felizes e não sabiam, mesmo tendo chefes como os meus.

Então vamos ao relato.

A vida corria tranquila, eu fazendo algumas coisas dentro de casa, Dorinha ao lado, às vezes ajudando, às vezes mudando e íamos bem, mas isso tem fim e vai acabando, afinal a nossa relação sempre foi de quatro, cinco horas por dia exceto os finais de semana e de repente ela passava de cinco para dezoito.
As refeições começaram a não ter mais assunto, as novidades acabaram (como ter novidades com dezoito horas por dia juntos? só se for para falar do tamanho do coco!) e ai o que sobrava para fazer era um contrariar o outro, olhem só que bacana.

A Dorinha, meio alemã meio espanhola e que tem o dom do verbo discordando comigo, um italiano que não tem o dom do verbo, mas não gosta de perder uma disputa.

Eu nunca apanhei tanto na vida, começava a ficar com saudades das broncas que meu pai me dava na minha adolescência. Já estava quase naquela de um falar bom dia e o outro responder por que você acha isso hein?

Eu estava começando a sentir um sapo enorme na goela e tudo, absolutamente tudo me irritava. Já não queria mais fazer as coisas em casa, achava que a Dorinha tinha se atirado nas cordas e largado tudo em cima de mim, aquelas coisas de quem não tem muito que fazer e fica arrumando pelo em ovo. Eu estava me tornando um velho ranzinza, isso com cinquenta e cinco anos de idade.

Do lado de lá, alguém me disse: Saia para uma caminhada, assim você espairece. Boa pensei, eu vou sair de manhã para caminhar pela região, olhar as casas e quem sabe achar uma que me agrade, apesar de que se me agradar, provavelmente Dorinha colocará defeito porque eu estou em descompasso, mas isso a gente vê depois.

No primeiro dia em que eu me preparei “piscologicamente” para sair, São Pedro mandou um recado:” Se quiser mesmo sair vai ter que provar que é macho”. Entendi assim porque chovia que era uma beleza. Eu olhei aquela chuva toda e cheguei à conclusão que não sou tão macho assim, pelo menos não o suficiente para encarar um santo.

Meu dia já havia começado com uma frustração. Dorinha levantou um pouco mais tarde e eu já estava no escritório. Fomos tomar café e como das últimas vezes, num silêncio sepulcral, somente a Cylla fazia a festa dela, correndo com o boneco pra cima e pra baixo, querendo brincar com a gente.
Depois do café, voltamos para o escritório, eu fui olhar os emails que nunca vem passear um pouco pelo facebook e acho que a Dorinha foi fazer o mesmo no computador dela. Tava boa a vida não é mesmo?

Ai eu senti uma vontade enorme de voltar para a cama e fiz isso. Desliguei o computador, dei um beijo na Dorinha e fui me deitar.

Acho que dormi uns cinco minutos e acordei.

Quando eu me dei conta de onde eu estava e o que eu estava fazendo foi que a ficha caiu pra valer.

Eu estava entrando em depressão, aquilo era o início do fim.  Danou-se (estou usando danou-se porque alguma criança pode ler, mas o que eu quero dizer é aquilo mesmo que vocês estão pensando que eu diria numa situação dessas). Eu não podia me deixar levar por essa. E quem ajuda a Dorinha a segurar o rojão?

Levantei, fui até o escritório, achei o meu currículo, acertei o que eu precisava, imprimi algumas cópias e falei pra Dorinha. Vou sair um pouco, levar uns currículos.

Vocês precisavam ver como os olhos dela brilharam e isso meu amigo NÃO TEM PREÇO. É o combustível que a gente precisa pra fazer a máquina andar de novo e a cintura afinar novamente.

Confesso a vocês que eu estava cheio de preconceito de medo de como fazer a abordagem e foi ai que o Cara lá de cima deu a mãozinha Dele e eu me lembrei do conselho do meu pai. Valeu velhinho, você é o cara.

Porque eu preciso procurar emprego? Eu preciso procurar uma ocupação. O dinheiro vem com o resultado.

Troquei-me e lá fui eu andar pelo bairro industrial de Canela olhando as empresas. Foi uma caçada a esmo. As empresas que eu achava legais eu parava e pedia para falar com o pessoal de Recursos Humanos.

Acabei deixando meu histórico profissional em uma empresa de madeira, em outra de autopeças e em uma que faz máquinas para envasamento de precisão. Nesta última o Aldo que me atendeu foi muito gentil e me mostrou toda a fábrica e o que eles faziam, até me deu umas dicas de onde visitar.

Quando ele abriu o envelope com o meu histórico foi que eu percebi como estava mal feito, mal acabado e mal apresentado. Fiquei com vergonha, mas eu já havia entregado e com certeza queimei três oportunidades.

Voltei para casa passando pela papelaria, comprei envelopes descentes para arrumar tudo.

Agora tem até uma carta de apresentação em que rapidamente narro o porquê de eu estar entregando o histórico profissional, ela é mais ou menos assim:

Acabo de me mudar para a cidade de Canela em busca de uma qualidade de vida melhor.

Sou natural de São Paulo e por lá trabalhei até o começo de 2012, quando me aposentei como publicitário.

Depois da casa arrumada, começo a perceber que se continuar dentro de casa, o divórcio acabará acontecendo então, estou em busca de uma ocupação para continuar contribuindo com a sociedade e manter o meu casamento.

Entendo a complexidade da sua agenda, porém quero marcar uma conversa para nos conhecermos.

Aproveito para encaminhar um resumo das minhas qualificações profissionais e desde já agradeço sua atenção.

Obrigado e bons negócios.”


Não sei se é o modelo ideal e peço desculpas aos RH´s de plantão, mas pelo menos me agrada e, além disso, junto com o papel, preparei um CD com algumas das coisas que eu fazia no último emprego.

Então é isso pessoal, estou à procura de uma ocupação para continuar contribuindo com a sociedade e manter o meu casamento.

E por falar em manter o casamento, vamos voltar ao tema.

Não preciso dizer que essa atitude além de me animar animou muito a Dorinha que passou, além de outras coisas, ter o que perguntar quando eu volto da rua e mais legal, eu tenho o que dizer.

Outra boa novidade é que Dorinha volta a ler o Taroh.  Combinamos uma forma de trabalho. Ela só lê. Eu cuido da divulgação, marcação e cobrança.

Alguns amigos que fizemos aqui na região também estão nos ajudando tanto na divulgação do Taroh como na indicação para eu entregar os históricos.

AGOGA VAI (como diria meu amigo Tito)

É meus amigos, eu agradeço a Deus e ao meu pai pela proteção e pelo conselho. Imaginem se Deus não tivesse me sacudido com a lembrança do conselho do velhinho?

Eu ainda estaria na cama, sem perspectiva cada vez mais triste e infeliz.

VALEU muito obrigado aos dois, mesmo, de coração.

E para aqueles que estão para se aposentar que se preparem porque além da vida em casa ser muito mais trabalhosa que na rua uma coisinha besta chamada “CABEÇA VAZIA” faz um estrago na sua vida que pode ser irreparável. Claro que ter a pessoa certa ao seu lado também ajuda e se me permitem uma sugestão.

Tenham o seu tempo para descansar arrumem a casa mas não deixem de serem produtivos, arrumem o que fazer para não torrar a paciência do outro.

Familiares não se preocupem estamos bem. Altos e baixos fazem parte do aprendizado e vocês sabem que de altos e baixos, eu entendo um pouco.

3 comentários:

  1. Gostei de ler seu texto. Pretendo me aposentar, definitivamente, logo e parei para pensar... É verdade que a rotina aqui em casa é bem mais animada, mas estar bem com a gente mesmo é o mais importante e isso independe do contexto. Ainda bem que você tem o bom senso de analisar e perceber a verdadeira origem das coisas. Beijos.

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  2. Cada coisa no seu tempo! Bem vindo ao clube.
    Sonia

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    1. isto jamais aconteceria se voce jogasse Xadrez, Boa Sorte!
      Maurão

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